Publicado na revista
Lux woman de Março de 2004
Reproduzido com a devida autorização

ELES SÃO ASSIM…

Pedro Tochas

O P(R)OCESSO

Foi um processo que levou Pedro Tochas de estudante atinado a um dos melhores comediantes portugueses. Que o fez estudar lá fora, pôr uma mochila às costas e atirar piadas às pessoas que passavam na rua. Passados 12 anos continua possuído pelo humor e pelos desafios que o fazem percorrer os quatro cantos do mundo com um único objectivo: partilhar

Por: Helena Ales Pereira
Fotografias: Rui Moreno

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Quando tinha 4 anos, disse à mãe: “Vou ser palhaço!” “Palhaço, meu filho?! Mas vais andar de terra em terra com a casa às costas e vão atirar-te bolos à cara e lançar-te aos leões. Não preferes ser engenheiro como o Belmiro e ganhar muito dinheiro?”, perguntou a mãe, esperançada. O filho, muito correcto na altura, decidiu seguir o conselho sábio e tornou-se um estudante exemplar. Na Universidade de Coimbra frequentou Engenharia Química, Química Industrial e finalmente Gestão. “O meu objectivo era seguir uma carreira de gestão. Nunca tinha pisado um palco, nunca tinha feito nada. Era bom aluno, gostava de computadores, tinha o meu mundo…”, recorda Pedro Tochas.

Voltando atrás, a verdade é que nunca disse à mãe que queria ser palhaço. O rapaz era tão atinado que, além de não consumir bebidas alcoólicas, só pensava em estudar. Ironicamente foi na faculdade que se perdeu um gestor e se ganhou… o artista!

Perdi-me em Coimbra
Diga-se em abono da verdade que Coimbra não é só queima das fitas, greves estudantis e pessoal amarrado aos portões. Tem uma associação académica que organiza muitas actividades interessantes – filatelia, teatro de vanguarda, ranchos folclóricos, clubes de xadrez e uma coisa que dá pelo nome de Orxestra Pitagórica. “Em 100 anos fui o primeiro a não precisar de ingerir bebidas alcoólicas para entrar. Queriam chumbar-me, mas depois perceberam que era suficientemente maluco para entrar sem precisar de beber”, conta Pedro. Tinha 19 anos. “Estavam a organizar uma festa de Natal e só tinham um palhaço e um músico. Como eu sabia fazer uns malabarismos com umas bolas, pediram-me que preenchesse 15 minutos, experimentei e gostei muito”, diz. Mas parece que não correu muito bem. A meio do espectáculo de rua caiu-lhe uma bola que um cão resolveu abocanhar e levar para parte incerta. “Não estava preparado para aquilo, mas quando passo o chapéu – que é uma coisa que continuo a fazer, acho que é importante – passo por um sem-abrigo, ele sorri e dá-me 2$50, porque naquele momento éramos todos iguais. Os espectáculos de rua são todos muito especiais, aquilo fica mágico. Já não parece a rua, é um mundo à parte. E tem a grande vantagem de as pessoas poderem escolher ou não. No teatro paga-se, há uma predisposição. Na rua passa-se, assiste-se ao espectáculo e passada meia hora é uma rua perfeitamente normal”, explica com entusiasmo. Começa por envolver-se em mais espectáculos, vai trabalhar para o Teatrão, porque precisavam de um actor que soubesse fazer malabarismos. “Mas percebi que tinha necessidade de formação. Descobri uma escola nos Estados Unidos que tinha professores cujo trabalho conhecia e de quem gostava muito e resolvi ir para lá”, conta. De mochila às costas, aterrou em terras do tio Sam.

Voei para longe
Nos Estados Unidos estuda malabarismo e comédia física no Celebration Barn Theater e faz alguns workshops durante o Verão. Mas a verdade é que os americanos não sabem tudo, há ainda muito para aprender. Por isso decide partir para Inglaterra, terra dos Monty Python, aqueles malucos do non-sense. O nosso Tochas pretende algo mais actual: manipulação de objectos, teatro físico e de rua, mímica, dança burlesca, palhaço teatral, escultura com balões. Ufa! E mais umas quantas coisinhas que tem a oportunidade de apurar na Circomedia-Academy of Circus Arts and Physical Theatre. “O segundo ano consistia num projecto orientado, ou seja, tinha de preparar um espectáculo desde a ideia inicial até ser apresentado numa sala. O meu encenador era o director da escola e ensaiava com ele duas vezes por semana. Mas tudo resto era eu que fazia, desde o guarda-roupa às luzes e à produção. Porque tinha de saber o que pretendia fazer. E isso foi muito importante: aprendi a produzir os meus próprios espectáculos”, diz Pedro Tochas. O nosso menino não só se saiu bem no final do curso, como foi convidado para voltar e fazer um ano de especialização. Mas antes garante a sobrevivência – que isto de viver só do que cai no chapéu pode ter momentos de crise – e regressa com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, algo que o enche de orgulho. “Quantas bolsas é que a Gulbenkian dá por ano? E na área do teatro e do circo?”, pergunta. Isto num país onde era comum perguntarem-lhe se só fazia espectáculos de rua porque não conseguia arranjar trabalho em mais lado nenhum foi obra.

Voltei a Portugal
Infectado com o bichinho da rua, Pedro Tochas encontrou-se novamente no seu mundo de eleição: os passeios, as praças, as esquinas. “Gosto da sensação e daquela ideia romântica de andar de mochila às costas. Gosto é de fazer espectáculos. Acho que se nota que estou a divertir-me imenso, é esse o meu objectivo. O ser conhecido ou não é secundário… Gosto de ser conhecido no sentido de ter público”, conta. Conto-lhe uma cena a que assisti, de uma senhora que passou pelo espectáculo de rua ‘Palhaço Escultor’ (trabalho de mímica) e se saiu com um “não percebo nada, é estrangeiro…” Pedro justifica: “Porque as pessoas são muito preconceituosas. Se há espectáculo que se percebe é aquele. É engraçado porque as pessoas dizem-me que tenho imensa sorte em conseguir que os participantes reajam de determinada maneira, e tudo o que acontece parece que é por acaso, mas fazem precisamente o que eu quero.” Mas num país cujo povo é considerado um dos mais tristes da Europa já parece tarefa árdua pô-los a rir, quanto mais a participar. “O nosso problema é mais o ‘parece mal’. Temos muito medo de sermos ridículos e acabamos por ser mais do que os outros. Além disso, temos a mania. Quando comecei a fazer espectáculos era complicado, porque as pessoas vinham com aquele atitude ‘Ó palhaço, faz-me rir…’ Agora, a maior parte vem porque conhece o meu trabalho, porque já ouviu falar de mim. Não é acidental. E mesmo que não resulte aqui, vou lá para fora…”, adianta.

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Percorri o mundo
E lá por fora o mundo parece outro. As pessoas gostam mesmo de palhaços, de malabaristas, de homens que cospem fogo, e de tudo o que os entretenha na rua durante os poucos dias que têm de sol, quando comparados com os do nosso país, onde se pode usar óculos escuros o ano inteiro. Mas isso é outra conversa. Mesmo à chuva, não arredam pé quando o artista é de primeira e lhes consegue arrancar umas boas gargalhadas. Ou como diz Tochas: “Quando se consegue tocar as pessoas.” Porque esse é o seu objectivo. “Se estás a ler um livro, tens de te identificar com alguém. Quando estás a ver arte, ela tem de te tocar de alguma maneira, pelo mau ou pelo bom”, explica.

Por isso é tão importante a interacção com o público. “Se não vai para um lado, tem de ir para outro. Tenho de estar alerta, tenho de ter um mínimo programado. Já fiz espectáculos de corta-parede, daqueles em que não há interacção, mas prefiro-os com interacção, embora acabe muito cansado”, diz.

Depois é bom saber que o seu trabalho resulta lá fora e é reconhecido. Em 2003 conquistou o prémio The Biggest Fool, atribuído no Festival Internacional de Porsgrunn, na Noruega, pelo seu espectáculo ‘O Palhaço Escultor’. O ‘seu’ palhaço Tochas conseguiu convencer todo o público de que era o melhor. “É um bocado estranho, porque é como se tivesse um bebé e de repente me dissessem que o meu bebé é o mais bonito. A emoção é muito mais forte, porque eu recordo tudo o que me levou a esse espectáculo. Comparações à parte, é como um actor que recebe um Óscar e nós pensamos que é por aquele filme, mas eles pensam na carreira, em tudo aquilo por que passaram para chegarem ali”, emociona-se.

E tanta piada não o cansa? Não gostava de fazer um drama? “Então não era? A vida é um drama. Mas não sei, acho que é mais complicado passar do drama para a comédia. Há actores de drama que vão para a comédia e andam um bocado a patinar, porque a comédia tem timings muito precisos.” Mas, se a vida é um drama, não é para estes lados. Pedro Tochas confessa que tem necessidade de estar sempre a rir. Isso é notório, já que é preciso lembrar-lhe várias vezes durante a sessão fotográfica que não faça caretas. “É giro ver a percepção que as pessoas têm depois de verem os nossos trabalhos. Principalmente quando lêem as nossas entrevistas, porque as pessoas não sabem nada de mim, não estão à espera que tenha uma vivência académica e um percurso académico de tertúlias e de debates que a maior parte das pessoas não tem. Faço espectáculos de rua, são dos mais difíceis, mas dão-me imenso gozo. É triste porque as pessoas não levam este trabalho a sério, é tudo muito superficial”, lamenta.

A minha vida
É onde busca a inspiração, é o que o motiva, é o que lhe faz correr as graças e as piadas para papel. Talvez por isso, tudo o que faz seja uma continuação de si próprio e os textos acabem por ganhar um pouco da alma do Pedro Nuno Simões Lopes dos Santos, seu nome de baptismo. Talvez também por isso durante esta conversa seja preciso refrear o artista, que facilmente se perde em piadas e graçolas. Mas afinal tudo é inspiração. “Vou anotando aquilo que quero fazer. Tento captar muita informação e deixá-la dentro de mim, para poder criar uma base de dados vasta. O espectáculo ‘Lado B’, por exemplo, está escrito para pouco mais de uma hora, mas facilmente consigo chegar às duas e até às duas horas e meia. Para além do texto, é necessário ter a noção das coreografias, da parte física. E tudo deve ser estudado, escrito”, explica.

Daniel Kitson, Ross Noble, Eddie Izzard, Steven Wright são alguns dos nomes que cita como referências e que mostram os muitos lados da performance de rua e da comédia. Pedro Tochas gosta de procurar esta variedade de estilos, uns mais agressivos, outros mais poéticos. “Gosto de explorar. Não sou pessoa para pensar ‘não tenho tempo, que seca’. Estou sempre à procura de coisas novas para explorar. Aliás, como artista, como criador, na medida em que crio os meus espectáculos, gosto muito de contar coisas que me acontecem, das chamadas story telling. Claro que acrescento outras: este meu último espectáculo, ‘Work In Progress’, vai ser uma mistura de todas as áreas que eu trabalho. É a minha vida.” Por isso realça a importância de um artista escrever os seus próprios textos, a sua própria visão. “Porque de outra forma os textos não têm ligação com o artista. Há pessoas que não têm presença, não criam empatia com o público, não têm um extra, falta-lhes alcançar um determinado nível, estão ali simplesmente a debitar texto, porque não trabalham o outro lado”, remata. Estas e outras razões levaram-no a dizer não ao convite para ir ao programa ‘Levanta-te e Ri!’. Será que se acha superior? “Não me identifico com o programa. Promove o plágio, não tem critérios de qualidade. Vejo lá sets de comediantes americanos traduzidos palavra por palavra. E depois consideram-se comediantes? Pegar em textos já feitos e meter meia dúzia de palavrões? Isso não é nada! Eles não têm um critério de qualidade. Tanto se vê um bom como a seguir aparece um gajo a dar peidos e se a seguir entra outro o público vai pensar: ‘O gajo dos peidos é que tinha graça.’ É preciso ter cuidado com quem nos associamos. Se decidisse participar nesse programa, estaria a dar-lhe o seu aval. Seria incoerente estar a dizer que não concordo e depois participar. Uma das razões que me levaram a ir para o estrangeiro foi o reconhecimento do nosso trabalho que aí é possível. Estar em Edimburgo a fazer um espectáculo de rua e haver artistas de todo o mundo a dizerem que tens uma abordagem original é fantástico. Há pessoas que se lembram de fazer ‘Monty Python, mas esquecem-se que aquilo apareceu num determinado país, numa dada altura, por certas razões. ‘Eles faziam non-sense, eu agora vou fazer non-sense.’ Mas qual é a lógica? Partem do fim, não querem ter o processo. Há uma coisa engraçada que costumo dizer: em comédia, o sucesso do dia para a noite demora dez anos. Vejo pessoas que querem alcançar um estatuto num mês”, conclui. Se alguém se sentiu ‘ligeiramente’ incomodado com as palavras anteriores, tente rever-se nas próximas, que são as de um verdadeiro artista, na ânsia de fazer espectáculos. “Eu quero partilhar. Quero chegar ao fim de um espectáculo e ter uma criança a dizer-me: ‘Tu és um bom palhaço.’ É a minha obra, que é pequenina, não mudou o mundo, mas aquela criança gostou. Como aquele caso, na Figueira da Foz, em que um pai chegou ao pé de mim e disse: ‘Você estragou-me as férias. Porque esteve aqui durante 15 dias com dois espectáculos por dia e a minha filha obrigou-me a vê-los todos…”

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